#02 Crônica: Sinal do Universo (?)
- evertonbdutra
- 16 de mar. de 2023
- 3 min de leitura

Eu sempre fui uma pessoa desastrada, dessas que tropeça nas palavras e derruba a bandeja de ideias toda no chão, parando a festa e fazendo os convidados revirarem os olhos. Só que nos últimos dias é possível que eu tenha me superado. Sendo bem sincero, eu não me recordo mesmo de ter ido no lançamento do perfume da lei Murphy, aquela que diz que o que tem de errado vai dar, mas com certeza eu devo ter comprado um frasco e esguichado com vontade nas minhas roupas. Em todas, aparentemente. Por falar em roupa, hoje eu perdi uma. Eu a tinha há anos e a usei poucas vezes. Era uma dessas camisetas sociais de manga longa, brega que só ela, mas eu não usava há anos! E achei que ficaria bem vesti-la como um casaquinho por cima da blusa que já estava usando. Tinha ficado quase ruim, e eu estava me convencendo de que que o "quase" alçava meu gosto para roupas para bem próximo do aceitável, até que minha mãe se pôs na porta do meu quarto e disse "Essa blusa nem cabe mais em tu", e eu respondi, ofendidíssimo: "cabe sim!", saindo altivo até o ponto do ônibus.
Eu prefiro considerar a minha perda brusca como um sinal do universo. Prossiga. Vai fazer sentido no fim de tudo.
Vinte minutos esperando o ônibus. Uma carta de suicídio quase escrita. Ele para no sinal com várias motos e vários carros bem na frente. Como eu ia dar com mão desse jeito? Ansiedade passando num carro de som se oferecendo a preço de pamonha (mas isso é assunto para outra Crônica).
Obstáculo vencido, o ônibus foi parar metros e metros depois de onde eu estava. Antes eu havia tirado a camiseta, pois estava calor, e a repousado na alça da minha bolsa. Foi aí que a ironia trágica se sucedeu. Na corridinha que tive que dar para alcançar o ônibus, a camiseta saiu voando e eu fiquei a procurá-la, mas eu sou péssimo em tomar decisões sob pressão. Entre correr atrás da camiseta e correr atrás do veículo, eu decidi subir no ônibus, e como a descoberta de uma existência superiormente interessante, eu vi a camiseta repousada no chão, respirando um último lampejo de liberdade fora do meu guarda-roupas escuro e frio.
Fiquei pensando que ando perdendo muitas coisas recentemente. Imagine só, noutro dia perdi minha garrafinha de água de anos! Ganhei de presente da minha mãe e ela me acompanhou nas minhas mais estarrecedoras sedes, sentiu minha boca arder de nervosismo, ansiedade e raiva. Em consideração à sua íntima boa vontade e empatia absoluta típica de um objeto que não fala, não ouve, mas absorve vontades, o que faço? Esqueço-a! No vão de uma sala de aula escura. Com quem será que ela deve estar agora? Pobre garrafinha preta! Jamais um fim tão triste se deu há um objeto tão indigno dele. Eu repito que a tinha há anos, e era presente da minha mãe. Agora passo sede nos corredores e lugares que vou. Bem feito.
Há muito pouco rasguei comprovantes de pagamentos e papéis em geral mantidos numa sacola de papel vermelha, outra coisa que guardo como se fosse um presente. Paguei por ela e pelos óculos que hoje uso. Estava entre os papéis a lembrança de um dos dias mais tristes da minha vida: O dia que assinei a morte do meu cachorro. Lorde Billy não tinha salvação, mas pagar para matá-lo foi covarde e vil da parte da vida. Jamais a perdoarei por isso. Talvez jamais me perdoe por isso. A eutanásia era a única solução e parte de mim se foi junto com a última respiração fraca de seus pulmões danificados. Queria não ter tido que passar por isso. Guardava-o, guardava o papel com a data e o valor da Eutanásia, ora para lembrar-me dos meus princípios e erros, para, numa tentativa falha, fazer com que não tivesse que cometê-los novamente. Que amolação! Como posso me mentir dessa maneira? Guardei-o para me torturar, para sentir o coração agonizar por dentro quando tivesse vontade. Mas rasguei tudo, cacei papel por papel, como se tivesse devastando centenas de pessoas de uma cidade inteira; cortei fora cabeças, braços, pernas. Num acesso de vontade de viver e prosseguir, porque viver, de fato, é isso, raiva.
Se não fosse assim, por que estaríamos de pé até o presente momento? Viver é raiva! E talvez não seja tão ruim quanto parece.
Não é coincidência, não pode ser coincidência, não aceito outra interpretação para perdas tão significativas. É o universo me dizendo "vai, menino. Segue teu rumo", aos chutes mesmo, aos gritos. E eu obedeço.
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