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#12 Crônica: Hoje à noite vai ser Miojo


Roda Infantil, Candido Portinari 1932


Passei o dia com medo do futuro, deitado no chão do meu quarto a olhar o teto até ficar escuro. Do outro lado do país, um amigo, faz tempo, não dorme direito preocupado com a saúde, com o pai e seu problema com a bebida. Não muito distante, alguém me contou que se preocupa com a falta de tempo pra família, porque trabalha demais, corre o tempo todo e quando chega em casa o tempo é quem corre dele. Ela me conta sempre dos problemas com a família e em como todo dia anseia por sair de casa, por arranjar um emprego e sair de casa. Eu o vejo não saber para onde ir, e me entristece sua falta de espírito. Queria poder ler seus pensamentos. Eu o vejo. É só isso que eu faço. Ela se afunda nas dívidas, mas luta sempre com seus estudos para uma vida melhor. Ela mantém as esperanças de um milagre e de um lugar que aquiete o ser humano que é, para chamar de seu. Ela tem muito medo de ficar sozinha também. Ele parece ter tudo o que sempre quis. Ela é tão insegura quanto bonita. Ele não parece muito satisfeito com o casamento. Ela também não, mas tem seus filhos, então...

Ele é alto e descolado, mas é bambo às vezes, e confuso. É boa gente, mas confuso. Ela está feliz depois que se mudou. A cidade fez tão bem para ela. Ela também sofre pela falta de dinheiro e reconhecimento das crias. Está sempre muito cansada. E é verdade. Será que ele sente saudades? Será que ele está bem? Como será que ele aparenta agora? O tempo a espera enquanto ela sabe disso. Enquanto ela corre o risco. Linha tão fina quanto um fio de cabelo grisalho dela. Ele é feliz? Dizer ninguém sabe. Ninguém nunca soube. Acho que desconfiam. 


Mas e tudo que eu faço? Onde estão todas as coisas que eu faço?


Eu me levanto do chão do meu quarto quando minhas costas doem. Eu desligo o ventilador e vejo a pilha de louças na pia. Mais tarde posso lavar. Agora não há nada que eu possa fazer.

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