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#05 Crônica: A vida não é para amadores


De Anita Malfatti, "A Boba".

A vida não é para amadores.

E percebi isso quando vi um cachorro de rua devorar um pombo simpático numa praça com requintes de insalubridade. Foi uma cena selvagem e visceral, que atingiu em cheio minha auto estima social capenga. Estava preocupado com o que escrever, qual seria o tema da minha próxima crônica, o que iria contar de novo, como iria fazer dar certo. Impressionante capacidade de se achar incapaz e encontrar o eu-insignificante nas coisas mais pequenas e bobas do mundo.


O fato é que eu era o pombo naquele momento, lutando pela sua vida com a asa machucada, impedido pela própria natureza de correr, de gritar por ajuda. O cachorro sarnento deitava e rolava com o pobre do pombo, deixava-o sentir a liberdade em efêmeros momentos de alívio, para depois o agarrar com a sua boca cheia de dentes e o dependurar ao debater-se. Horrível. Horrível!


A pior parte foi não poder fazer nada. Ora, o que eu, como espectador de uma natureza que não era minha podia fazer? Brigar com o cachorro, espantá-lo aos chutes por ele estar fazendo o que deveria fazer: sobreviver? Quem sou eu para ditar o que é certo ou não na vida de um cão? Eu não sou nada! E aquele pombo também não era.


A vida não é para amadores.

O pombo não ia sobreviver com a asa machucada. O cachorro tirou da conta menos um dia de fome e eu deveria parar de achar que o mundo inteiro está voltado para mim.


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