top of page

#06 Crônica: Estou feliz em não ser uma coisa só (e isso me basta)


"o afeto como interferência na forma de um 'ruído conceitual''.
CIBELLE CAVALLI BASTOS: Is a Feeling, 2013

Houve um tempo em que me questionava sobre qual pessoa eu deveria ser, qual o ideal de pessoa ideal para todo mundo. Houve um tempo em que na minha cabeça passavam-se horas e horas de um filme dos últimos acontecimentos do meu dia, que entre um frame e outro eu pausava a imagem e buscava vestígios de imperfeições palpáveis. Houve um tempo em que eu buscava o melhor de mim para os outros, em que eu me desgastava como um papel que sente a borracha sumir com os erros diversas vezes. Só que meus erros eram à caneta, e a borracha não os apagavam, só deixava o papel mais fino e no lugar daquele erro ficava um vestígio grosso e escuro do que outrora se queria limar. Houve um tempo em que o errado era só eu, que quem sujava os sapatos, que quem fechava a cara para o que não gostava, que quem desagradou o dia de alguém que esperava mais, enquanto eu me sentia cada vez menos. Era eu. Houve um tempo em que eu me lapidava vistoso na esperança de ver o tilintar dos olhos, o despertar da admiração. Houve um tempo em que eu era só isso, porque também não tinha muita coisa pra ser. Eu era bom, eu estava amado, eu fui maleável.


Foi-se o tempo de ser uma coisa só. Agora eu sou várias coisas, e me basta o fato de eu ser do seu desagrado. Às vezes me basta o fato de eu ser do seu desagrado. É bom.


Comentários


bottom of page